sempre descabelada







dramática distraída



25/08/2010 14:12

Distraída

Surgiu outro dia uma conversa sobre ter filhos e uma amiga minha comentou que eu tinha um jeito maternal, e que parecia mesmo que eu ia ser uma boa mãe: cuidadosa, atenta, carinhosa. Eu tomei como elogio, como sempre fazia quando alguém dizia isso (incluindo testes de revistas femininas); particularmente satisfeita comigo mesma por ver que alguém de fora também reconhecia em mim uma coisa que me parecia clara. Uma coisa da qual eu me orgulhava, como a gente se orgulha de ter algum talento especial.
Mas aí, não sei. Foi meio estranho, mas alguma coisa mudou. Eu vi nesse mesmo dia, mais tarde, quando fui pra cama e tentei dormir - processo que costuma levar horas. Tive a sensação de que a idéia já não me parecia mais tão atraente. Não me parecia mais, na verdade, uma idéia tão repleta de significado. O que foi que de repente me tirou de uma linha de pensamento que durava meses e meses, e meses, não sei. Claro que eu não estava tecnicamente programando, planejando, meticulosamente, nem nada, nem teria como. Mas estava sonhando, de certa maneira. Como uma doce expectativa. Um sonho mais ou menos distante e bom, que sempre me trazia de volta pra felicidade quando tudo parecia vazio.
E agora não me vejo mais embarcada na felicidade do sonho. A sensação simplesmente sumiu. Veio o pensamento e em vez de dias ensolarados no parque, risadas e porta-retratos cheios de closes de um Bebê Johnson, eu só pensei nas cãibras, nas infecções urinárias, nas noites sem dormir e em todos os detalhes da parte ruim do grande prêmio. E aí, o prêmio pareceu pequenininho.
O que era o objeto do meu desejo me pareceu um objeto comum, sem nada de extraordinário. E eu me senti longe de querer fazer qualquer coisa com o meu corpo ou com o meu tempo que parecesse sacrificante ou generoso. E longe de querer me desfazer de um monte de vontades que não combinam com ter que ser responsável por alguém.
Desapareceu a menina casadoira. Ficou essa menina aqui, indiferente, desligada de ambições familiares. Desligada daquilo que vivem fazendo a gente acreditar que é importante. Desligada de imaginar coisas afetivas pro futuro. Sem grandes ambições. Olhando pro vazio. Distraída.


o que você pensa(1)



25/08/2010 14:05

A peixa

Dois pequenos peixes beliscando a peixa grande, gorda e grávida. A peixa boiava, a barriga redonda pra cima, na água filtrada. Ela boiava, a despeito das plantinhas que a gente arrumou pro aquário. A despeito das pedrinhas e conchinhas todas naturais que a gente foi coletando por aí, pra dar pra eles uma casa mais ou menos parecida com uma casa de verdade. Aquela peixona boiava a despeito da gente ter resgatado ela de uma poça que secava com o sol no campus da faculdade e trazido ela pro aquariozinho bem-cuidado.
A morte é tão banal, se você for pensar. Não importa se você está na poça d’água ou no aquário do apartamento. Não importa se você vai ter filhinhos ou não, se você tem um pai ou uma mãe ou vários amigos ou nenhum amigo. Nem importa se você tomou café da manhã. É como nascer, comer, dormir. É mais uma coisa dentre as coisas. Mais uma coisa pra se fazer na vida. A diferença é que a gente resolveu inventar deuses, medos, explicações e significados diferentes e saiu enfiando idéias dentro da idéia da morte. Mas a morte, de verdade, ela só acontece, existe, e é simples. Simples como parar de comer a ração e parar de nadar em círculos dentro de um aquário. Simples como abrir espaço. A morte é só isso: boiar com a barriga pra cima.


o que você pensa(1)



12/08/2010 20:50

4 por 4

A Deborah colocou ali, bem ali na minha frente, a cinco cadeiras enfileiradas de distância, o espetáculo. A moça muita branca de cabelos muitos vermelhos, o japonês, a moça da trança de princesa, e todos eles. Lindos e fortes e apaixonantes.
E eles dançaram pros meus olhos verem. Subiram nas paredes dos cantos e pularam pulos de gatos, vestidos pra festa, cheios de atitude e energia. E eu amando, querendo ser gato também, querendo usar o vestido de festa também, toda energizada.
Levaram as esquinas pra fora da cena e trouxeram, e passaram pela cena toda, da esquerda pra direita, ao longo do ato, a mesa. A super-mesa em que todo mundo subia e que eu queria colocar bem no meio da minha casa. A super-mesa dos pés que iam deslizando de um lado pra outro, por cima dela, pra cima e pra baixo, brincando de coisas que passam, de coisas que caem e que levantam, de coisas que mudam. De gente interagindo. De relacionamentos sendo feitos e desfeitos. A mesa do agora. Meus olhos vidrados na mesa passearam pelo palco. Saiu a mesa e ficaram minhas idéias agitadas.
Depois, todos de cor de rosa, laranja, vermelho, amarelo, azul e verde, brincaram de amor e de paixão, de humanidade, de busca, de ideais, brincaram de ingenuidade e de desejo. E eu sorri, espelhada na música do príncipe encantado, sorri divertida, vendo que a Deborah também sabe que a gente parece um monte de doces coloridos querendo ser desejados, amados e devorados.
Daí veio a coreógrafa - que inventou de tocar no piano uma sonata de Mozart! E resolveu colocar pra acompanhar a música as meninas-bailarinas misturando dança contemporânea com balé clássico. As meninas modernosas com pique de levadas, investidas nas velhas sapatilhas boudoir de um rosa-pálido que me atrai toda, toda vez.
E o final. O final simplesmente me tirou o fôlego! O chão ficou cheio de vasos de porcelana. Os bailarinos se meteram em todos aqueles caminhos de labirinto e fizeram as coisas mais incríveis! A concentração extrema a que devia se prestar cada um deles, a perfeição exata e milimétrica da posição de cada um dos vasos e de cada um dos passos, e as próprias porcelanas, cada uma diferente da outra: tudo remetia a uma idéia de oriente. E daí vinham as minhas idéias de que a gente não deveria temer tanto os riscos. Eles vão estar sempre presentes, nos mais diversos lugares, não importa a curva ou linha reta que a gente tome. E de que quando você acha que já sabe que uma coisa está ali, no segundo seguinte ela pode ter mudado de lugar. De que os problemas e as dificuldades fazem parte do cenário, e fazem dele algo menos óbvio: algo maior e mais desafiador. Idéias de que em tudo existem possibilidades. De que em tudo existe beleza. De que a gente nasceu pra aprender, pra fazer o melhor, pra amar, saltar, arriscar, dançar. Mesmo que no meio da chuva, mesmo que o momento não pareça ideal. Dançar, mesmo que à beira de abismos.


o que você pensa(0)



06/08/2010 00:06

Independência I

Eu: cabelos ao vento, mãos abanando, circulando pela cidade, vendo filmes incríveis, sendo paquerada pelo cara de terno e gravata e amando...
Eu, cheiro de fruta, fresca, fácil, leve, linda, conversando, sorrindo, distribuindo simpatia...
Desencanada, desacanhada, desafetada, caindo de boca e de amores na sobremesa italiana absolutamente divina que o restaurante criou pensando em mim...
Eu, irrepreensível, idiossincrática, inexoravelmente poética, doce, rica, interessante, interessada, criativa, curiosa, corajosa, apaixonada, idealista, entusiasta...
Eu, eu e minhas pernas, e minha boca, e minha força, eu e minha inteligência, eu e minha alegria, eu e minha cinturinha.
Eu e esse meu jeito de bailarina, esse meu jeito de gata, esse meu jeito de princesa.
Yogue, soprano, atriz, fotógrafa, escritora, desenhista, metida a inventar moda.
Maternal, protetora, dedicada, generosa, amiga, adorável.
Indecomposta, indeterminada, indestrutível.
Deliciosamente independente.


o que você pensa(3)



05/03/2010 01:24

I love airplane noise

No banco do ônibus atrás de mim, e não era o 107, duas pessoas conversando em absoluto espanhol. O meu ouvido cheio da minha universalidade não deu conta de saber se da América ou da Europa. Mas o ouvido universal teve certeza de que não era o espanhol de segunda língua. Eram de outro país, tinham outros cheiros, acreditavam em outras influências. O ritmo acelerado, sensual e quase bruto da conversa me tirou do ônibus e me remeteu a filmes, fotos, viagens, mergulhos, frutas, música, arquitetura, arte, aventura. De Barcelona, das Ramblas, da Barceloneta, de Lisboa, de Perpignan, de Montpellier, do Ticino inteiro, de uma ponte de dois mil anos, de uma cidade envolvida em uma fortaleza, de cafés da manhã à beira de lagos.
Eu me senti presa por ter obrigações a cumprir e delas fazer parte essa idéia de todos os dias ter que estar presente nos mesmos lugares, ver as mesmas pessoas e fazer as mesmas coisas.
A conversa estrangeira, o idioma alheio, a música, o inusitado, a surpresa e a riqueza do plural me atordoavam deliciosamente e eu me sentia quase injustiçada por ter a obrigação da mediocridade, da adequação, da mesmice e do ajustamento.
Quando saltei do ônibus, um avião passou por cima da minha cabeça, deixando pra trás a cidade do Rio de Janeiro.
Dentro de mim, sensações, imagens, gostos, sons, velocidade, palpitação, ansiedade, angústia, desejo, calor. Dentre mulheres de saltos altos e homens de camisas de botão, eu não via ninguém em volta que se parecesse comigo: com tantos cabelos voando, com uma saia tão rodada, tão florida, com alças tão finas por cima da linha dos peitos, com olheiras tão verdadeiras. Com tanta raiva e tanto amor.
Eu me lembrei que nunca fui infeliz dentro de um avião. Que mesmo quando embarcava chorando, mesmo quando tinha que deixar alguém nove mil e tantos quilômetros atrás de mim, mesmo quando eu não sabia o que iria fazer quando saísse de dentro do avião, eu nunca me sentia perdida. Era sempre como se estivesse no lugar certo. Como se não houvesse nada melhor a fazer no mundo do que pegar aquele avião, pra onde quer que fosse. Como se não houvesse nada melhor do que despregar os pés do chão do lugar onde estivesse, observá-lo sob o ponto de vista da curva inclinada da manobra que segue a decolagem. Como se ao ficarem menores as pessoas e construções, ficasse também todo o resto. E sobrasse eu.
Inundada de música, de cor, de vida. Louca para pegar milhares de ônibus novos, falando todas as línguas possíveis.
Eu, solta no céu, forte e mágica como o avião.

03feb10


o que você pensa(9)



05/03/2010 01:18

Sobre um fim de semana de Carnaval

Saí do trabalho, mergulhei na praia, levei meu cabelo molhado pro cinema, dormi na cama da Elizabeth. Acordei com pizza e vinho branco. Dancei Manu Chao. Entrei pelo Pequeno mas balança e saí pelo Suvaco de Cristo. Tomei suco, tomei mate, tomei iogurte gelado, tomei banho. Eu quis ir pra praia, mas dormi. Eu fui pra praia e já não tinha mais sol, quase. Eu vi e ouvi o Manoel de Barros. Eu fui feliz e fui triste.

09feb10

Eu tinha que contar dois minutos do ponto de ônibus até o portão da minha casa. Aos dez segundos, eu desmaiei. Acordei no colo de um homem, em frente a um hospital. Me furaram os braços, me mediram a pressão sangüínea e não sei bem o que mais fizeram e imagino que aos poucos a cor vermelha deve ter voltado pra minha boca e pras minhas bochechas. O movimento em torno da minha figura diminuiu. Não sei quanto tempo ainda mais demorou até que eu tivesse força pra tirar o celular de dentro da bolsa e chamar minha mãe. Depois de atrapalhar a rotina de mais um, fui para casa com sentimento de coisa inanimada.

09feb10


o que você pensa(1)



05/03/2010 00:52

Impressionando Lara

My friend Rafael Barreto had the idea and I thought it could be interesting to make this kind of ode to the good things on Earth for once - and exercise my ability of speaking highly.

Impressing Lara

The way Foucault explained structures
The way Nietzsche explained life
The way my heart beats with a just enormous happiness every time I watch my body getting detached from the ground that gets smaller and smaller while an airplane takes off and takes me anywhere else
Children laughing, establishing relations, making questions and speaking their minds
Attentive, responsible, honest and caring mothers
Nelson Mandela’s entire trajectory and his huge and high sense of justice
Dita von Teese’s intelligence that is kind like a book entitled How to become a Goddess
Madeleine Peyroux’s voice, especially performing “Dance me to the end of love”, sweet, frantic and strong
The way love is presented so perfectly and poetically in this song
Villa-Lobos and the sound of his prelude No.1 that splits my mind from my body in a almost divine way
Segovia Andres playing guitar and helping Villa to make me hear poetry
The vision I have of the sun enlightening the planet and the feeling I have of life making sense for being just beautiful every time I hear to Bach 140
My little sister who tied her hair pink while it could still be cute and unmade it before it could be seen as stupid only
Eric who adopted all alone a 7 year old boy from Brazil and came back to France as a father
Sophie for all the many reasons that make of her someone so admirable: she is intelligent, and funny, and pretty, and brave, AND, lucky me, she is my friend
Jorge because his little childish eyes are always shining and making me feel good
Patricia, the most incredibly adorable and most of all greatly loyal and honest friend I had the grace to find in my way
People who are talented to make good surprises
All the people who face fear
All the people who face problems
All the people who make true compliments
All the people who make true statements despite of the games that most people insist to play as a way of living
All the people who have the ability to see good things inside the regular things

o que você pensa(0)



02/02/2010 02:05

Janeiro

Emergências de hospital, oito remédios diferentes, fisioterapia, gelo no joelho, um acidente de trânsito, licença médica por uma semana, muitas brigas e um aniversário não muito celebrado.

o que você pensa(3)



30/01/2010 13:37

Irritando Lara

Quem não escreve decentemente me irrita, quem só fala gíria e palavrão, se acha o máximo, é inseguro e tenta parecer forte, nunca ri de nada, não chega junto e quem observa o mundo com indiferença e apatia me irrita profundamente. Quem reclama o tempo todo, se faz de vítima, tenta me fazer de refém e quem acha que chantagem emocional é uma possibilidade me irrita. Quem não mostra sensibilidade, preocupação, carinho, cuidado, quem não considera os diversos aspectos de uma situação, quem só pensa em si próprio, quem pratica a filosofia do não estar nem aí pra ninguém me irrita. Quem deixa cabelo na pia, aperta a pasta de dentes no meio do tubo, deixa toalha molhada em cima da cama, joga lixo no chão e quem não usa a seta do carro me irrita muito.
Acima de tudo, me irrita gente que não dialoga e não acha importante resolver problemas.


o que você pensa(5)



27/01/2010 19:50

Sobre uma vida

"Eu era viúva havia cinco anos e estava tomando lanche com meus cinco filhos à noite, quando o telefone tocou. Era maio de 1982. No telefone, estava o meu irmão dom Paulo Evaristo Arns, na época o cardeal de São Paulo. Ele me contou que vinha de uma reunião da ONU. Eles pediram a dom Paulo que pensasse sobre como a Igreja poderia ajudar a expandir o uso do soro oral para as mães, com o intuito de evitar a desidratação, causada pela diarreia. E ele me aconselhou a pensar em como fazer isso. Foi, para mim, um momento de muita emoção. Na ocasião, eu era diretora da Saúde Materna Infantil do Estado do Paraná e o partido político no governo havia mudado. Apesar de eu não pertencer a nenhum partido político, eles me tiraram da direção da Secretaria da Saúde. Eu me sentia subutilizada quando dom Paulo me telefonou, parecia que Deus estava me abrindo uma grande porta: ensinar as mães a cuidar melhor de seus filhos. Depois que meus filhos foram dormir naquela noite, eu planejei a Pastoral da Criança inteira. Eu queria salvar vidas."


Zilda Arns, médica, sanitarista, vítima da tragédia no Haiti.


o que você pensa(0)



26/01/2010 21:50

Hipócrates

Médicos, exames, agulhas, seringas, pílulas, comprimidos, cápsulas.
Passos infantis do sofá pra cama.
Eu sou uma super-heroína com criptonita no cérebro.

o que você pensa(0)



25/01/2010 21:20

Minhas visitas

Tinha meses que eu não entrava no blog. E eu não pensei que durante esse tempo alguém entrasse aqui. Mas entra. Eu descobri que cerca de duas dúzias de pessoas - se minha matemática rápida estiver mais ou menos razoável, enfim - passa pelo dramática todos os dias.
Eu fiquei curiosíssima tentando imaginar quem são vocês.
Gente que eu conheço? Pessoas que caíram aqui por acaso?
Não faço idéia.


o que você pensa(4)



25/01/2010 19:42

Diálogos

Parece que é boa a coisa de dialogar.
Eu entrei no formspring.
Be my quest.

o que você pensa(0)



25/01/2010 19:32

Quatro mil metros

Sou eu por fora e os meus quatro mil metros de profundidade por dentro.
Eu e meu chão que ninguém nunca alcança, que luz nenhuma nunca ilumina.
Chão em que não existe nada de comprovadamente vivo ou óbvio.
Coisa misteriosa e complicada, difícil de acessar, de entender, explicar.

Vem em lentas ondas a dúvida sobre as possibilidades de explorar
meu oceano abissal particular.

jul09

o que você pensa(0)



25/01/2010 19:28

Fumante

Eu fumo para tirar de mim esse vazio, você disse, soltando a baforada, escorado à porta da área de serviço. Você tinha o olhar pobre, parecia subitamente menor e mais fraco. A tua fumaça sacava do teu espírito mundano aquilo que você resolveu chamar de vazio e a tua fumaça fétida penetrava meu nariz adentro, enfiando em mim o vazio que era teu. Enquanto você se enchia de torpor, eu te via esvaziando tudo de realidade e de beleza. Eu assistia como outra, a mim própria, tristemente esvaziando de esperança. Você me esvaziava a admiração e o desejo. O teu cigarro feio se mostrava pra mim e dizia grosseiramente que eu não era ninguém que pudesse encher a tua vida, nem a tua casa, nem o teu vazio, nem mesmo a tua área de serviço. A tua camisa velha tinha a gola esgarçada. A tua mão gesticulava nervosamente numa pretensa atuação de independência e liberdade. Você cheirava mal. A casa cheirava feito a morte. Eu te olhava, quieta e sozinha, acabar com o cigarro e com a minha alegria.

sep09

o que você pensa(0)

Página 1 de 1
leitores 16073 Blog-se Copyright © 2003 Comunique-se S/A. Todos os direitos reservados. All rights reserved.

WebNeste site