sempre descabelada







dramática distraída



05/03/2010 01:24

I love airplane noise

No banco do ônibus atrás de mim, e não era o 107, duas pessoas conversando em absoluto espanhol. O meu ouvido cheio da minha universalidade não deu conta de saber se da América ou da Europa. Mas o ouvido universal teve certeza de que não era o espanhol de segunda língua. Eram de outro país, tinham outros cheiros, acreditavam em outras influências. O ritmo acelerado, sensual e quase bruto da conversa me tirou do ônibus e me remeteu a filmes, fotos, viagens, mergulhos, frutas, música, arquitetura, arte, aventura. De Barcelona, das Ramblas, da Barceloneta, de Lisboa, de Perpignan, de Montpellier, do Ticino inteiro, de uma ponte de dois mil anos, de uma cidade envolvida em uma fortaleza, de cafés da manhã à beira de lagos.
Eu me senti presa por ter obrigações a cumprir e delas fazer parte essa idéia de todos os dias ter que estar presente nos mesmos lugares, ver as mesmas pessoas e fazer as mesmas coisas.
A conversa estrangeira, o idioma alheio, a música, o inusitado, a surpresa e a riqueza do plural me atordoavam deliciosamente e eu me sentia quase injustiçada por ter a obrigação da mediocridade, da adequação, da mesmice e do ajustamento.
Quando saltei do ônibus, um avião passou por cima da minha cabeça, deixando pra trás a cidade do Rio de Janeiro.
Dentro de mim, sensações, imagens, gostos, sons, velocidade, palpitação, ansiedade, angústia, desejo, calor. Dentre mulheres de saltos altos e homens de camisas de botão, eu não via ninguém em volta que se parecesse comigo: com tantos cabelos voando, com uma saia tão rodada, tão florida, com alças tão finas por cima da linha dos peitos, com olheiras tão verdadeiras. Com tanta raiva e tanto amor.
Eu me lembrei que nunca fui infeliz dentro de um avião. Que mesmo quando embarcava chorando, mesmo quando tinha que deixar alguém nove mil e tantos quilômetros atrás de mim, mesmo quando eu não sabia o que iria fazer quando saísse de dentro do avião, eu nunca me sentia perdida. Era sempre como se estivesse no lugar certo. Como se não houvesse nada melhor a fazer no mundo do que pegar aquele avião, pra onde quer que fosse. Como se não houvesse nada melhor do que despregar os pés do chão do lugar onde estivesse, observá-lo sob o ponto de vista da curva inclinada da manobra que segue a decolagem. Como se ao ficarem menores as pessoas e construções, ficasse também todo o resto. E sobrasse eu.
Inundada de música, de cor, de vida. Louca para pegar milhares de ônibus novos, falando todas as línguas possíveis.
Eu, solta no céu, forte e mágica como o avião.

03feb10


o que você pensa(0)



05/03/2010 01:18

Sobre um fim de semana de Carnaval

Saí do trabalho, mergulhei na praia, levei meu cabelo molhado pro cinema, dormi na cama da Elizabeth. Acordei com pizza e vinho branco. Dancei Mau Chao. Entrei pelo Pequeno mas balança e saí pelo Suvaco de Cristo. Tomei suco, tomei mate, tomei iogurte gelado, tomei banho. Eu quis ir pra praia, mas dormi. Eu fui pra praia e já não tinha mais sol, quase. Eu vi e ouvi o Manoel de Barros. Eu fui feliz e fui triste.

09feb10

Eu tinha que contar dois minutos do ponto de ônibus até o portão da minha casa. Aos dez segundos, eu desmaiei. Acordei no colo de um homem, em frente a um hospital. Me furaram os braços, me mediram a pressão sangüínea e não sei bem o que mais fizeram e imagino que aos poucos a cor vermelha deve ter voltado pra minha boca e pras minhas bochechas. O movimento em torno da minha figura diminuiu. Não sei quanto tempo ainda mais demorou até que eu tivesse força pra tirar o celular de dentro da bolsa e chamar minha mãe. Depois de atrapalhar a rotina de mais um, fui para casa com sentimento de coisa inanimada.

09feb10


o que você pensa(0)



05/03/2010 00:52

Impressionando Lara

My friend Rafael Barreto had the idea and I thought it could be interesting to make this kind of ode to the good things on Earth for once - and exercise my ability of speaking highly.

Impressing Lara

The way Foucault explained structures
The way Nietzsche explained life
The way my heart beats with a just enormous happiness every time I watch my body getting detached from the ground that gets smaller and smaller while an airplane takes off and takes me anywhere else
Children laughing, establishing relations, making questions and speaking their minds
Attentive, responsible, honest and caring mothers
Nelson Mandela’s entire trajectory and his huge and high sense of justice
Dita von Teese’s intelligence that is kind like a book entitled How to become a Goddess
Madeleine Peyroux’s voice, especially performing “Dance me to the end of love”, sweet, frantic and strong
The way love is presented so perfectly and poetically in this song
Villa-Lobos and the sound of his prelude No.1 that splits my mind from my body in a almost divine way
Segovia Andres playing guitar and helping Villa to make me hear poetry
The vision I have of the sun enlightening the planet and the feeling I have of life making sense for being just beautiful every time I hear to Bach 140
My little sister who tied her hair pink while it could still be cute and unmade it before it could be seen as stupid only
Eric who adopted all alone a 7 year old boy from Brazil and came back to France as a father
Sophie for all the many reasons that make of her someone so admirable: she is intelligent, and funny, and pretty, and brave, AND, lucky me, she is my friend
Jorge because his little childish eyes are always shining and making me feel good
Patricia, the most incredibly adorable and most of all greatly loyal and honest friend I had the grace to find in my way
People who are talented to make good surprises
All the people who face fear
All the people who face problems
All the people who make true compliments
All the people who make true statements despite of the games that most people insist to play as a way of living
All the people who have the ability to see good things inside the regular things

o que você pensa(0)



02/02/2010 02:05

Janeiro

Emergências de hospital, oito remédios diferentes, fisioterapia, gelo no joelho, um acidente de trânsito, licença médica por uma semana, muitas brigas e um aniversário não muito celebrado.

o que você pensa(1)



30/01/2010 13:37

Irritando Lara

Quem não escreve decentemente me irrita, quem só fala gíria e palavrão, se acha o máximo, é inseguro e tenta parecer forte, nunca ri de nada, não chega junto e quem observa o mundo com indiferença e apatia me irrita profundamente. Quem reclama o tempo todo, se faz de vítima, tenta me fazer de refém e quem acha que chantagem emocional é uma possibilidade me irrita. Quem não mostra sensibilidade, preocupação, carinho, cuidado, quem não considera os diversos aspectos de uma situação, quem só pensa em si próprio, quem pratica a filosofia do não estar nem aí pra ninguém me irrita. Quem deixa cabelo na pia, aperta a pasta de dentes no meio do tubo, deixa toalha molhada em cima da cama, joga lixo no chão e quem não usa a seta do carro me irrita muito.
Acima de tudo, me irrita gente que não dialoga e não acha importante resolver problemas.


o que você pensa(3)



27/01/2010 19:50

Sobre uma vida

"Eu era viúva havia cinco anos e estava tomando lanche com meus cinco filhos à noite, quando o telefone tocou. Era maio de 1982. No telefone, estava o meu irmão dom Paulo Evaristo Arns, na época o cardeal de São Paulo. Ele me contou que vinha de uma reunião da ONU. Eles pediram a dom Paulo que pensasse sobre como a Igreja poderia ajudar a expandir o uso do soro oral para as mães, com o intuito de evitar a desidratação, causada pela diarreia. E ele me aconselhou a pensar em como fazer isso. Foi, para mim, um momento de muita emoção. Na ocasião, eu era diretora da Saúde Materna Infantil do Estado do Paraná e o partido político no governo havia mudado. Apesar de eu não pertencer a nenhum partido político, eles me tiraram da direção da Secretaria da Saúde. Eu me sentia subutilizada quando dom Paulo me telefonou, parecia que Deus estava me abrindo uma grande porta: ensinar as mães a cuidar melhor de seus filhos. Depois que meus filhos foram dormir naquela noite, eu planejei a Pastoral da Criança inteira. Eu queria salvar vidas."


Zilda Arns, médica, sanitarista, vítima da tragédia no Haiti.


o que você pensa(0)



26/01/2010 21:50

Hipócrates

Médicos, exames, agulhas, seringas, pílulas, comprimidos, cápsulas.
Passos infantis do sofá pra cama.
Eu sou uma super-heroína com criptonita no cérebro.

o que você pensa(0)



25/01/2010 21:20

Minhas visitas

Tinha meses que eu não entrava no blog. E eu não pensei que durante esse tempo alguém entrasse aqui. Mas entra. Eu descobri que cerca de duas dúzias de pessoas - se minha matemática rápida estiver mais ou menos razoável, enfim - passa pelo dramática todos os dias.
Eu fiquei curiosíssima tentando imaginar quem são vocês.
Gente que eu conheço? Pessoas que caíram aqui por acaso?
Não faço idéia.


o que você pensa(2)



25/01/2010 19:42

Diálogos

Parece que é boa a coisa de dialogar.
Eu entrei no formspring.
Be my quest.

o que você pensa(0)



25/01/2010 19:32

Quatro mil metros

Sou eu por fora e os meus quatro mil metros de profundidade por dentro.
Eu e meu chão que ninguém nunca alcança, que luz nenhuma nunca ilumina.
Chão em que não existe nada de comprovadamente vivo ou óbvio.
Coisa misteriosa e complicada, difícil de acessar, de entender, explicar.

Vem em lentas ondas a dúvida sobre as possibilidades de explorar
meu oceano abissal particular.

jul09

o que você pensa(0)



25/01/2010 19:28

Fumante

Eu fumo para tirar de mim esse vazio, você disse, soltando a baforada, escorado à porta da área de serviço. Você tinha o olhar pobre, parecia subitamente menor e mais fraco. A tua fumaça sacava do teu espírito mundano aquilo que você resolveu chamar de vazio e a tua fumaça fétida penetrava meu nariz adentro, enfiando em mim o vazio que era teu. Enquanto você se enchia de torpor, eu te via esvaziando tudo de realidade e de beleza. Eu assistia como outra, a mim própria, tristemente esvaziando de esperança. Você me esvaziava a admiração e o desejo. O teu cigarro feio se mostrava pra mim e dizia grosseiramente que eu não era ninguém que pudesse encher a tua vida, nem a tua casa, nem o teu vazio, nem mesmo a tua área de serviço. A tua camisa velha tinha a gola esgarçada. A tua mão gesticulava nervosamente numa pretensa atuação de independência e liberdade. Você cheirava mal. A casa cheirava feito a morte. Eu te olhava, quieta e sozinha, acabar com o cigarro e com a minha alegria.

sep09

o que você pensa(0)



12/08/2009 23:53


o que você pensa(0)



11/08/2009 02:24


Voltaram os relógios. Todas as pessoas juntas, em todas as casas, em todas as vilas, cidades. Todos juntos deram corda para trás e foi o tal anti-tempo.
Aí era janeiro, naquele sábado infernal, e eu era a criança com mais cabelos da maternidade. Esperei uma semana até que ele nascesse.
Eu quis dizer antes de todas as outras coisas que já estava tudo decidido e que, por isso, ele não precisava ter medo nem se preocupar. Eu quis dizer a ele que estava decidido o que eu queria que a gente fizesse. E propus a ele que a gente voltasse ali em 2022. Ele achou que eu era muito dramática.
E sugeriu 2017.


o que você pensa(1)



11/08/2009 02:19


Eu tinha ficado dois anos sem falar.
Foi por medo que pela primeira vez me calei. Porque antes, toda vez em que abria a boca querendo dizer que amava, mentia e dizia que odiava.
E foi depois que fiquei desesperada. Antes, me sentia só culpada, e culpada eu me sentia quase sempre, e isso já não era assustador.
Tinha ficado dois anos dizer nenhuma palavra, me infligindo a dor de ser penalizada por não ter conseguido dizer as coisas certas. E tinha ficado deitada em minha cama, presa a uma imagem vertiginosa de um dia de julho em que perdi alguma coisa que nunca tinha sido minha.
Porque tinha sido pequena, e porque não havia nenhum crime previsto por lei para a minha vulgaridade, eu tinha puxado com os dentes e com minha pouca força os últimos milímetros que faltavam para que meus punhos não mais pudessem se soltar do nó entre eles e a cama.


o que você pensa(0)



11/08/2009 02:10


Eu olhava pra frente sem fixar o olhar em coisa nenhuma. Eu tinha os olhos parados enquanto todo o resto se mexia. Eu sabia que ele existia em algum outro lugar da cidade. A gente fazia parte da mesma cidade. E enquanto eu me movia de um ponto a outro, todos os apartamentos tinham as luzes acesas e ele estivesse talvez jantando, talvez olhando cadernos, talvez dando comida à gata. Ele estivesse talvez sentindo saudades da ex-namorada. Eu quase sorria, e sentia os olhos ardendo da maneira de sempre, querendo conter o choro. Eu poucas vezes senti aquilo de maneira tão crua: era alegria, alegria vibrante. Era uma felicidade gigantesca, porque eu sabia que ele estava vivo, porque sabia que ele bebia coca-cola, usava óculos e, às vezes, sorria. Uma fanfarra doida se dava dentro de mim, porque o timbre e o tom da voz dele se faziam escutar dentro do meu cérebro mesmo que ele estivesse mudo. E eu ali, imóvel, impassível. O coração entusiasmado, só porque ele existia. Porque ele existia, pura e simplesmente, sem nada a mais nem a menos. Porque ele existia. E eu existia também. Ele de bermuda, eu de saia. Ele careca, eu descabelada. Nós dois respirávamos, nós dois acordávamos, dormíamos e vivíamos os mesmos dias do mesmo calendário cristão. E a leveza dessa alegria era igual ao peso da calma e constante dor que eu levava porque não era comigo que ele existia. Era a dor que me lembrava que também não era com ele que eu existia. E enfim, parece não existir nós dois.

o que você pensa(0)

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